Ao Senhor Otávio Frias Filho
Diretor de Redação do Jornal FOLHA DE S. PAULO
Ao Senhor Mário Magalhães
Ombudsman do Jornal FOLHA DE S. PAULO
Prezados Senhores
O Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo,
única entidade que, por disposição estatutária, tem plena legitimidade
para representar a Família Umbandista e a grande maioria das mais
respeitadas, sérias e bem conceituadas Federações Umbandistas de São
Paulo, e a Liga das Mulheres Umbandistas do Brasil, vêm, em conjunto,
lançar manifestação sobre tudo quanto foi publicado na chamada de capa e
nas páginas 4, 5, 6 e 7 do caderno "+mais!" jornal FOLHA DE S. PAULO de
Domingo, 30 de março de 2.00, relativamente ao centenário da religião.
Nesse particular, por uma lado é de se parabenizar
esse tão conceituado veículo de informação, inclusive no que diz respeito
à sua Sucursal Rio e, mais notada e especialmente, cumprimentar o
jornalista Marcelo Beraba pela qualidade e fidelidade da matéria encerrada
nas páginas 4, 5 e 7.
Por outro lado, porém, impõe-se, por ser de absoluto
rigor, o registro de indignação e veemente repúdio à diagramação, que fez
inserir um "artigo" de Reginaldo Prandi, matéria intitulada "Coração de
Pombagira", iniciando a página 6, e, assim, de entremeio (e ao longo de
toda a metade esquerda), separando a matéria intitulada "O Terreiro da
Contradição" e a coluna de fotos que a deveria seguir e até tinha espaço
para ser assim, posto que de mesmo tamanho, igual disposição e idêntica
dimensão às daquele "artigo".
Pior: mais que só entremear a valiosa matéria do
jornalista Marcelo Beraba e o excelente material advindo da Sucursal Rio,
em absurda separação, essa inserção do escrito por Reginaldo Prandi, além
de se fazer ladeada pela mencionada coluna de fotos (duas de médiuns
e outra do Prof. Saracene), ela nada tem de ligação direta e real com a
Umbanda e seu Centenário.
Assim é que, em primeiro, há por se destacar que
Reginaldo Prandi, embora titulado, eis que professor de sociologia da USP
e autor de algumas obras, como Minha querida Assombração e Os
príncipes do destino, nenhuma relação tem com a Religião Umbandista,
e, ainda que eventualmente tenha se proposto a dedicar algum estudo ao
Candomblé e Catimbó, com efeito não se reveste de qualquer espécie de
autoridade para representar a Fé ou falar em nome da Umbanda.
Mais que só isso: esse "artigo" por ele assinado e,
em diagramação, inserido de entremeio, além de se apresentar em espaço
rigorosamente inadequado, vez que "localizado" em meio a matéria temática,
real e séria, ele, se tanto, compõe literatura de biografia mítica,
encerrando única e exclusivamente uma "história de ficção". Apenas e tão-
somente isso, como, aliás, o afirma o próprio autor da peça "Especial para
a Folha" enfocada.
Nesse particular, para que efetivamente clara fique
a impropriedade dessa inserção, havida de entremeio e sem razão de ser,
nos cumpre observar as nem tão sutis diferenças entre os diversos
"escritos" que vemos publicados.
Em regra, o que a Folha de S. Paulo publica é
informação, entretenimento, nunca se furtando à divulgação de fatos,
conhecimento, saber e lazer.
E isso sempre com seriedade e retidão. Não é por
quaisquer outros motivos que tem a aceitação, a circulação e a
credibilidade que poucos alcançaram.
Com certeza, aqui nenhuma dúvida reside, nem cabe
qualquer discussão!
Cabe-nos então apreciar do contido no "artigo" que
resultou "inserido" em meio à matéria principal, ao centro e foco da
publicação encerrada no citado exemplar. Impõe-se-nos fixar no que encerra
esse questionado "Especial para a Folha" de Reginaldo Prandi.
Ora, de singela leitura do texto apontado, vê-se que
nos deparamos apenas e tão-somente com um "comentário" que se vê precedido
de uma fantasia.
Com efeito, embora magistralmente conduzida a sua
redação, de modo a causar ao leitor uma impressão de estar tendo contato
com um "relato real" auferido por um jornalista, em cobertura a ato, fato,
acontecimento, episódio verdadeiro, coisa da vida real, ele carrega uma
fábula, uma historieta de mau gosto, um conto do "boi da cara
preta", um produto do imaginativo, uma criação da imaginação, uma
fantasia, ou, como afirma o próprio autor, Reginaldo Prandi, uma "historia
de ficção".
De certa forma, o que temos de fato é apenas um
"conto". Conto? Sim. Conto!
Mas, afinal, o que é um conto?
Todos sabemos o que é um conto! E, por certo, com
muito maior razão, Vossas Senhorias sabem bem o que é um conto.
Mesmo assim, é válido avançar-se um pouco, para bem
nítido ficar o conceito de conto e, por óbvio, cristalinamente aflorado o
motivo do repúdio e de tanta indignação, contra a "inserção" de um "conto"
bem no meio de uma séria e bem elaborada "matéria jornalística"!
De simples consulta ao Dicionário Michaelis, se
extrai que conto é uma historieta imaginada, uma fábula, é uma mentira.
São, pois, mentiras para acalantar ou assustar
crianças, não raro com uso de metáforas, ou, em inúmeras vezes, inventadas
para amedrontar, induzir, iludir indivíduos mais rústicos, incautos,
incultos, pessoas mais influenciáveis e susceptíveis a engodos e embustes.
Segundo o Worpedia, é gênero de prosa de ficção, uma
narrativa folclórica. Vale dizer: é uma estória, uma historieta, uma
invenção que pouco ou nada tem de verdade, de história real.
Como muito bem assenta Fernanda Queiroz, conto é uma
narrativa linear, que não se aprofunda no estudo da psicologia das
personagens nem nas motivações de suas ações; contém um só assunto
cujos detalhes são tão comprimidos e o conjunto do tratamento tão
organizado, que produzem uma só impressão.
A finalizar, basta lembrar a definição de conto como
encontrada no inexcedível Novo Dicionário (Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira; Ed. Nova Fronteira) "Narrativa pouco extensa, concisa, e que
contém unidade dramática, concentrando-se a ação num único ponto de
interesse".
Conto, portanto, não é crônica nem relato!
Então, contos, fábulas, estórias, são coisas de
entreter, agradar ou assustar mas nunca informar!
Nessa conformidade, quiçá por incúria, por
desconhecimento da religião ou ignorância sobre a matéria, para nem se
cogitar de outros objetivos, de fins sensacionalistas, de motivos
canhestros ou de interesses mais torpes, evidente é que, ao efetuar ora
repudiada a inserção do texto aqui enfocado bem no meio (e, se não como
divisor, até mesmo como "componente") da séria e digna matéria objeto da
sem dúvida verdadeira e principal intenção desse tão prestigiado diário
informativo, a diagramação e, bem assim, a redação, na composição do todo
desse jornal Folha de S. Paulo fez desinformar ou, no mínimo, gerar
confusão, em ato que, lamentavelmente, vem em total desencontro da prática
que lhe é peculiar.
E, por essa forma, o mínimo que nos resta, a nós do
SOUESP - Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo, da LIMUB - Liga
das Mulheres Umbandistas do Brasil, Federações, Líderes Religiosos,
Membros Federados, Fiéis Umbandistas e todos os demais leitores que, sendo
ou não religiosos, adeptos ou simpatizantes da religião, têm direito à
melhor informação e ao mais adequado esclarecimento, é esperar, como de
fato esperamos, as dignas providências do jornal Folha de S. Paulo, de
seus dirigentes, de seu editorial, de sua redação, enfim da instituição
informativa
e de todos quantos responsáveis a componham, em
sentido de trazer à luz, ainda que por nota explicativa, a inexistência de
relação entre a "fábula" que, precedentemente a seus comentários e à
manifestação de sua opinião, Reinaldo Prandi trouxe no seu "Especial para
a Folha" sob o título "Coração de Pombagira" notada, especial e
principalmente para que não se tenha prevalecente a idéia de que, com tal
expediente, se tenha buscado atacar e denegrir, absurda, consciente e
infundadamente a pessoa das Mulheres Umbandistas, menoscabar da Religião
da Umbanda, depreciar os Fiéis Umbandistas e atingir a honra de todos
quantos, familiares, maridos, filhos, pais, irmãos, amigos, conhecidos,
patrões, empregados, sócios e outros, próximos de quaisquer Membros,
Fiéis, Irmãos de Fé da Sagrada Umbanda!
ANTONIO BASILIO FILHO, ADV
VICE-PRESIDENTE DO SOUESP
DIRETOR-JURÍDICO DA LIMUB